Marcel Schwob morreu em Paris em 26 de fevereiro de 1905, com apenas 37 anos, depois de anos de saúde frágil. Pouco antes, havia vivido uma experiência decisiva para sua vida e para sua obra: a intensa admiração por Robert Louis Stevenson e a tentativa de se aproximar dele — ou, mais exatamente, de sua memória.
Schwob admirava profundamente Stevenson: escreveu sobre sua literatura, trocou correspondência com o autor e fez dele objeto de sua busca literária e pessoal. Identificava em sua escrita uma qualidade próxima do ideal simbolista: o poder de sugestão, isto é, uma forma narrativa que evita a explicação excessiva e prefere insinuar, preservando zonas de indeterminação que embaralham os limites entre real e irreal, entre fato e fantasia. Ao mesmo tempo, havia um componente biográfico nessa admiração: Stevenson representava o escritor-viajante, que transforma experiência, deslocamento e risco em matéria literária. Esse modelo ajuda a compreender por que, após a morte do escritor, Schwob radicalizou o vínculo e tentou literalmente seguir seus passos, viajando ao Pacífico em direção ao vilarejo de Vailima na ilha de Upolu, em Samoa no ano de 1901. A viagem, no entanto, teve um desfecho frustrante: Schwob chegou debilitado, adoeceu gravemente, não conseguiu cumprir plenamente o objetivo de visitar a tumba de Stevenson e precisou retornar à França em condições precárias, que o levariam ao óbito anos depois.
Schwob nasceu em 1867, em Chaville, nos arredores de Paris, num ambiente ligado à imprensa: seu pai, Isaac-Georges Schwob, foi editor e fundador do jornal Le Phare de la Loire. Sua mãe, Mathilde Cahun, vinha de uma família judaica alsaciana de perfil intelectual e teve papel importante na vida do escritor, inclusive foi destinatária de dezenas de cartas, o que evidencia a proximidade e o peso dessa relação familiar. Maurice Schwob, irmão mais velho de Marcel, foi uma figura central do jornalismo republicano francês: tornou-se editor do jornal fundado pelo pai e também administrou uma casa de impressão. A filha de Maurice, Lucy Renee Mathilde Schwob, ao adotar o pseudônimo Claude Cahun, nos anos de 1920 tornou-se uma influente artista, posteriormente identificada com o surrealismo.
Marcel Schwob teve uma formação marcada pelo estudo de línguas e pela leitura intensa de autores clássicos e modernos, além de uma proximidade direta com bibliotecas e acervos. Na juventude, morou com o irmão de sua mãe, o tio Léon Cahun, bibliotecário da Bibliothèque Mazarine, considerada a biblioteca pública mais antiga da França, fundada no século XVII a partir da coleção do cardeal Jules Mazarin. Localizada no Palais de l’Institut de France, a Mazarine reúne até hoje um acervo voltado à pesquisa, com forte presença de livros raros, manuscritos e incunábulos, funcionando como um espaço de estudo marcado pelo contato direto com a materialidade do livro e com práticas eruditas de arquivo.
Seu livro mais influente é Vies imaginaires, publicado em 1896 pela Bibliothèque-Charpentier. Nele, Schwob publica 25 narrativas curtas que reimaginam a vida de personagens históricas ou lendárias: poetas, criminosos, aventureiros e piratas. O livro propõe um desvio importante em relação aos procedimentos correntes da imprensa do século XIX. No período, os perfis biográficos (retratos, necrológios, esboços) costumavam funcionar como peças de exaltação moral, narrando a vida de homens ilustres como trajetória coerente e exemplar. É contra esse horizonte que Vidas imaginárias se afirma: Schwob não escreve para edificar, mas para singularizar, substituindo o “grande homem” pelo desvio, pela anomalia e pelo detalhe raro. Nesse sentido, seu livro pode ser colocado em perspectiva com Los raros, publicado no mesmo ano 1896 em Buenos Aires; e também Les Poètes maudits de 1884, França, por Paul Verlaine. Essas obras que já deslocavam a atenção para artistas excêntricos e marginais; porém Schwob radicaliza o gesto, recusando qualquer hierarquia estável e tratando toda vida como matéria de montagem literária.
Schwob consolidou, assim, um modelo de escrita biográfica em que a vida não aparece como sequência completa de fatos, mas como construção narrativa orientada por escolhas, recortes e traços específicos. Vidas imaginárias se tornou referência para várias tradições literárias e críticas posteriores, especialmente em formas híbridas entre biografia, ficção, ensaio e montagem.