O casamento com o escritor uruguaio Felisberto Hernández, em 1949, foi particularmente propício às atividades exercidas por África de las Heras. O casal se conheceu em Paris, durante a temporada em que o escritor buscava reconhecimento internacional. Não se sabe ao certo como África e Felisberto se encontraram. Ela pode ter se aproximado em um dos cafés onde ele costumava escrever ou talvez buscado contato após alguma conferência. O certo é que aquele encontro não parece ter sido, como em tantas histórias de amor, obra do acaso.
África procurava precisamente um perfil como o de Felisberto: um escritor bem relacionado e reconhecidamente anticomunista. Aproximou-se dele apresentando-se como Maria Luisa de las Heras, espanhola, estilista de alta-costura e exilada pela Guerra Civil de seu país. Com o casamento, obteria o passaporte uruguaio e se tornaria cidadã daquele pequeno país ao sul do continente, estrategicamente situado entre Brasil e Argentina, conhecido então por seu progresso social e por certa tolerância política.
Após o retorno a Montevidéu, em maio de 1948, Felisberto mobilizou sua influência para conduzir um complexo trâmite burocrático, já que sua noiva não possuía os documentos necessários para migrar. Poucos meses depois, Maria de las Heras desembarcava em Montevidéu; no ano seguinte, estavam formalmente casados. Pouca gente chegou a conviver com ela naquele período. Nunca se via o casal junto. Maria não frequentava cafés nem círculos literários. Vivia encerrada em sua sala de costura no apartamento do casal. Para não importunar Felisberto com o ruído da máquina Singer, mandou acolchoar as paredes e instalar uma rígida vedação nas portas. O detalhe curioso é que Felisberto era conhecido justamente por escrever em lugares barulhentos.
O casamento entre Maria de las Heras e Felisberto Hernández durou pouco mais de dois anos. Um dia, ela afirmou estar com o coração partido, arrumou suas coisas e foi embora. Felisberto parece não ter tentado compreender inteiramente o que acontecia com Maria, tampouco fez muito esforço para manter o matrimônio (anos depois, ela confidenciaria a uma amiga que aqueles haviam sido os piores anos de sua vida).
Depois da separação, Maria de las Heras permaneceu algum tempo fora do Uruguai, provavelmente na Europa. Meses mais tarde, retornou a Montevidéu já acompanhada do italiano Valentino Marchetti, com quem se casou e manteve, durante alguns anos, um antiquário na Ciudad Vieja. O casal cultivou algumas amizades e circulou discretamente pela cidade. Nesse período, Maria viajava com frequência para países da região e participava de atividades ligadas a organizações de caridade. Em 1967, Valentino Marchetti morreu de forma inesperada (talvez, suspeita). Pouco depois, ela se desfez-se da casa, encerrou o antiquário e desapareceu.
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África de las Heras morreu na União Soviética, em decorrência de problemas cardíacos. Está enterrada no Cemitério Khovanskoye, ao sul de Moscou. Em sua lápide aparece o nome espanhol pelo qual era conhecida nos serviços soviéticos: “Patria”. A inscrição, em russo, registra seu posto — Coronel da Segurança do Estado — e as datas 25 de abril de 1910 – 8 de março de 1988.
Ela viveu no Uruguai entre 1949 e 1967. Felisberto Hernández morreu em 1964, sem jamais desconfiar das atividades clandestinas de sua ex-esposa. A verdadeira dimensão de sua trajetória começou a emergir publicamente apenas décadas depois, nos anos 1990 quando jornalistas de investigação começaram a cruzar os dados dos arquivos russos com os registros civis de Ceuta e Madri.
As pesquisas revelaram que África de las Heras foi na verdade, uma especialista em radiotransmissão que atuou nas frentes da Guerra Civil Espanhola e da Segunda Guerra Mundial ao lado dos soviéticos. Após a guerra, trabalhou para o NKVD (posteriormente transformado na KGB) e coordenou operações de agentes ilegais na Europa e na América Latina até os anos 1970. Ela participou da rede clandestina que preparou o assassinato de Leon Trotsky e, mais tarde, passou a viver definitivamente na União Soviética, onde atuou na formação de novos agentes de espionagem. Reconhecida por seus serviços, recebeu em 1976 a Ordem de Lenin, uma das maiores condecorações soviéticas.
Após essas revelações, o chamado “caso Patria” tornou-se amplamente debatido e motivou ao menos duas extensas pesquisas biográficas: Patria: una española en la KGB, de Javier Juárez, publicado em 2008, e Mi nombre es Patria, de Raúl Villarino, lançado em 2016. Desde então, tornou-se possível recompor fragmentos de uma vida atravessada por pseudônimos, deslocamentos e operações clandestinas.